quinta-feira, 17 de março de 2011

Um texto sobre a palavra "Palavra"

Decidi publicar um texto que escrevi há duas semanas, mais precisamente no dia 3 de Março, para a cadeira de TEP (Técnicas de Expressão do Portugûes) que me deu algum gozo compor. O exercício proposto pelo professor consistia em falar sobre uma palavra qualquer. De todas as palavras, optei por escrever sobre a palavra palavra pois achei que seria giro escrever  sobre uma palavra que também tivesse ligação com todas as outras.


Palavra


                “Mas uma palavra qualquer?!”, perguntei. “Sim, o professor disse para escolheres uma qualquer, desde que não sejam aquelas banais, como a compaixão, a liberdade, os amigos, o amor, a felicidade, a família…”.
Mas que chatice! Eu sei lá agora que palavra é que vou escolher… Lembrei-me de muitas palavras mas nenhuma me parecia a “tal”. Depois, pensei que talvez o melhor fosse consultar o meu dicionário e, eu estava tão confiante em que ao abri-lo numa página qualquer automaticamente estaria lá a palavra certa a piscar-me o olho, ou, quem sabe, a mandar-me sorrisinhos, como quem diz “Estou aqui! Sei há quanto tempo ansiavas por me colocar a vista em cima”, que acabei por abri-lo, de forma aleatória, por mais de cinco vezes seguidas. Ou, para dizer a verdade, por mais de quinze. Isto tudo até que desisti e comecei a folhear o dicionário, de trás para a frente e vice-versa. Ele conversou comigo e deu-me tantas sugestões que fiquei ainda mais indecisa e sem saber por onde começar. E sabem que quando uma pessoa começa a sentir-se indecisa por muito tempo também começa a ficar revoltada com a situação. Quer dizer, com tantas sugestões, como é que hei-de decidir qual das palavras merece maior protagonismo?
As palavras, que são muito vaidosas e querem sempre subir na vida, quando souberam que eu tinha de escrever um texto sobre uma delas, mas que ainda não me tinha decidido sobre qual, espalharam a notícia por toda a cidade de Letras. Por todo o país da gramática e dos prontuários se comentava o acontecimento e na cidade de Letras foi notória a agitação que as palavras estavam a viver perante a possibilidade de virem a ser eleitas e de terem duas páginas dedicadas só à sua existência. Ouvia-se ser comentado o assunto em todas as apóstrofes, até as preposições do convento espalhavam a palavra e as vírgulas da assembleia. Todos os dias chegavam candidaturas de palavras de todo o tipo, desde acepipe a zígnia, e de todos os pontos do país, que enunciavam, da forma mais caricata, as razões pelas quais seriam a palavra certa. Mandei chamar algumas dessas palavras ao meu gabinete para que me pudessem apresentar pessoalmente os seus depoimentos.
Muito dona do seu nariz a palavra fado, sem quase dizer nem bom dia nem boa tarde, quis automaticamente reivindicar os seus direitos e disse que deveria ser a escolhida pois representava, para além da música portuguesa, o fatum, isto é, o destino, e acreditava que não existia palavra mais indicada do que ela mesma para quem quer elaborar um texto com qualidade. Entretanto, outra palavra veio para me inquietar, que azar! Esta palavra fez-me lembrar os políticos já que se chegou até mim cheia de promessas e argumentou que se fosse escolhida tudo aquilo que eu escrevesse emanaria originalidade e brilho. Coisa que não aconteceu, culpa do azar. Logo nas primeiras duas linhas decidi deixar de lado a palavra azar e decidi ouvir os depoimentos da palavra cabra-cega. Esta palavra foi uma forte concorrente: transportou-me até às memórias da minha infância, era inocente e pouco vaidosa. Alegava pertencer a todas as crianças pois não havia nenhuma que não jogasse no infantário à cabra-cega e que não tentasse evitar ir parar ao meio da roda como a “pata choca”.
Mas ainda muitas outras palavras me passaram pela frente, como a cicatriz, que era alta, robusta, nada elegante e um bocadinho feia (coitadinha!) e que me veio dizer, de forma rude e sofrida, que era uma palavra muito importante pois simbolizava as feridas já cicatrizadas e as marcas deixadas nos humanos. Companheiras fiéis destes últimos até à sua morte, as cicatrizes não percebiam por que razão eram tão desprezadas.
Também mandei chamar outras palavras ao meu gabinete como, recado, contradizer, aurícula (não me perguntem porquê), bê-á-bá e, mesmo assim, depois de ter ouvido todos estes depoimentos, ainda não me tinha conseguido decidir por completo. E é neste contexto que chegamos ao presente, não tenho mais para contar. Estou para aqui sentada a divagar à espera que a inspiração me venha preencher a alma e acontece que esta só pode estar, de novo, de amuos comigo pois não me sinto iluminada nem estou a transbordar de criatividade. Já tentei persuadi-la mas ela é matreira e quanto mais chamamos por ela mais finge que nos vem oferecer ajuda e, ao invés disso, vem sugar-nos as acanhadas ideias que vamos tendo. É uma espécie de Robin Hood da cidade das Letras, mas que em vez de roubar aos ricos para dar aos pobres, fá-lo de forma contrária, vem roubar a pessoas como eu que estão a carecer de imaginação. Gostava de saber onde guarda tantas ideias e a quem as oferece, porque está visto que a mim não é certamente. Mas não se admirem; isto no país da gramática e dos prontuários nem sempre funciona de forma normal.
 E é no meio desta inquietação, quando já não vejo salvação para o meu caso, que surge de fininho uma última palavrinha. Esta última fascinou-me com o seu aspecto singelo, meigo e modesto mas, ao mesmo tempo, tão grande e tão mais apropriado que todos os outros. Não me apresentou mais do que uma razão, contundo essa tornou-se mais forte do que todas as inúmeras razões enunciadas pelas outras palavras, pois digam-me lá que palavra poderia merecer maior protagonismo do que aquela que tem significado em si mesma e em todas as outras?
E foi assim que resolvi o meu dilema e escolhi escrever um texto sobre a palavra palavra.
                                                                                                              Raquel Macdonald Martinho

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